Footprints - Praia do Castelejo, Vila do Bispo, Algarve
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quarta-feira, 2 de julho de 2014

Aurélio...

XV

Aurélio, a minha felicidade em tuas mãos deponho.
Um pequeno favor te peço:
Se do fundo de alma, a alguém quiseste,
que desejaras casto e não tocado,
defende-me a virtuda deste mancebo,
não das investidas do vulgo (nada receio
daqueles que na praça se movem dum lado
para o outro, em seus negócios ocupados),
mas é precisamente a ti que eu temo e ao teu caralho,
infesto a rapazes castos e viciados.
Põe-no em acção onde te agrade, como te agrade,
quantos queiras, todas as vezes que ele te saia das encolhas armado.
Creio-me razoável, só este exceptuando.
Mas se a tua loucura e uma paixão insana
te propelirem, celerado, para tamanho crime,
corrompendo, traiçoeiro, o objecto de meus cuidados,
então, ai de ti, mísero de má fortuna!
Com as pernas afastadas, pelo cu às escâncaras,
Te enfiarei rábanos e rodovalhos.

XVI

Ó Aurélio, brochista, ó Fúrio paneleiro,
a vós que, sendo meus leves versos voluptuosos,
por eles devasso me julgastes,
eu vos hei-de enrabar e embrochar.
Ora se um autêntico poeta casto deve ser,
não é força que seus versos o sejam.
Estes afinal sabor e canto hão-de ter,
se forem galantes e nada cândidos,
e capazes de aguilhoar desejos,
não digo nos moços, mas nesses pilosos
que não podem já os engrunhidos rins mover.
Vós, lá porque lestes muitos milhares de beijos,
Acaso me considerais falto de virilidade?
Pois hei-de-vos enrabar e embrochar.

XXI

Aurélio, ó pai das fomes,
não só das de agora, mas de quantas existiram,
existem ou existirão em anos futuros,
tu queres enrabar o meu favorito.
E nem disfarças, pois não o largas: juntos brincais,
colado à sua ilharga, de tudo lanças mão.
Embalde. Antes de ciladas me dispores
te há-de a minha porra a boca atafulhar.
Se o fizesses com a barriga cheia, eu calava-me;
agora o que me dói é que o meu moço
tenha de aprender a suportar a fome e a sede.
Anda lá, desiste enquanto é possível sem escândalo,
não aconteça que tenhas de acabar, mas embrochado.

terça-feira, 1 de julho de 2014

Gozemos a vida, Lésbia...

V

Gozemos a vida, Lésbia, fazendo amor,
desprezando o falatório dos velhos puritanos.
A luz do sol pode morrer e renascer
mas a nós, quando de vez se nos apaga a breve luz da vida,
resta-nos dormir toda uma noite sem fim.
Beija-me mil vezes, mais cem;
outras mil, outras cem.
Depois, quando tivermos ajuntado muitos milhares,
vamos baralhá-los, perdendo-lhes a conta,
para que nenhum invejoso, incapaz de contar beijos tantos,
possa mau-olhado nos lançar.