Footprints - Praia do Castelejo, Vila do Bispo, Algarve
Mostrar mensagens com a etiqueta Ary dos Santos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Ary dos Santos. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 20 de abril de 2020

DA CONDIÇÃO HUMANA

Todos sofremos.
O mesmo ferro oculto
Nos rasga e nos estilhaça a carne exposta.
O mesmo sal nos queima os olhos vivos.
Em todos dorme
A humanidade que nos foi imposta.
Onde nos encontramos, divergimos.
É por sermos iguais que nos esquecemos
Que foi do mesmo sangue,
Que foi do mesmo ventre que surgimos.

ARY DOS SANTOS, in Vinte anos de poesia.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Minha Mãe que não Tenho

Minha mãe que não tenho    meu lençol 

de linho    de carinho    de distância 
água memória viva do retrato 
que às vezes mata a sede da infância. 

Ai água que não bebo em vez do fel 
que a pouco e pouco me atormenta a língua. 
Ai fonte que eu não oiço    ai mãe    ai mel 
da flor do corpo que me traz à míngua. 

De que Egipto vieste?    De que Ganges? 
De qual pai tão distante me pariste 
minha mãe    minha dívida de sangue 
minha razão de ser violento e triste. 

Minha mãe que não tenho    minha força 
sumo da fúria que fechei por dentro 
serás sibila    virgem    buda    corça 
ou apenas um mundo em que não entro? 

Minha mãe que não tenho    inventa-me primeiro: 
constrói a casa    a lenha e o jardim 
e deixa que o teu fumo    que o teu cheiro 
te façam conceber dentro de mim. 

Ary dos Santos, in 'Antologia Poética' 

domingo, 30 de setembro de 2012

Meu Camarada e Amigo

Revejo tudo e redigo
meu camarada e amigo.
Meu irmão suando pão
sem casa mas com razão.
Revejo e redigo
meu camarada e amigo

As canções que trago prenhas
de ternura pelos outros
saem das minhas entranhas
como um rebanho de potros.
Tudo vai roendo a erva
daninha que me entrelaça:
canção não pode ser serva
homem não pode ser caça
e a poesia tem de ser
como um cavalo que passa.

É por dentro desta selva
desta raiva deste grito
desta toada que vem
dos pulmões do infinito
que em todos vejo ninguém
revejo tudo e redigo:
Meu camarada e amigo.

Sei bem as mós que moendo
pouco a pouco trituraram
os ossos que estão doendo
àqueles que não falaram.

Calculo até os moinhos
puxados a ódio e sal
que a par dos monstros marinhos
vão movendo Portugal
— mas um poeta só fala
por sofrimento total!

Por isso calo e sobejo
eu que só tenho o que fiz
dando tudo mas à toa:
Amigos no Alentejo
alguns que estão em Paris
muitos que são de Lisboa.
Aonde me não revejo
é que eu sofro o meu país.

Ary dos Santos, in 'Resumo'


quarta-feira, 16 de maio de 2012

Queixa e imprecações dum condenado à morte





Por existir me cegam,
Me estrangulam,
Me julgam,
Me condenam,
Me esfacelam.
Por me sonhar em vez de ser me insultam,
Por não dormir me culpam
E me dão o silêncio por carrasco
E a solidão por cela.
Por lhes falar, proíbem-me as palavras,
Por lhes doer, censuram-me o desejo
E marcam-me o destino a vergastadas
Pois não ousam morder o meu corpo de beijos.

Passo a passo os encontro no caminho
Que os deuses e o sangue me traçaram.
E negando-me, bebem do meu vinho
E roubam um lugar na minha cama
E comem deste pão que as minhas mãos infames amassaram.
Com angústia e com lama.

Passo a passo os encontro no caminho.
Mas eu sigo sozinho!
Dono dos ventos que me arremessaram,
Senhor dos tempos que me destruíram,
Herói dos homens que me derrubaram,
Macho das coisas que me possuíram.

Andando entre eles invento as passadas
Que hão-de em triunfo conduzir-me à morte
E as horas que sei que me estão contadas,
Deslumbram-me e correm, sem que isso me importe.

Sou eu que me chamo nas vozes que oiço,
Sou eu quem se ri nos dentes que ranjo,
Sou eu quem me corto a mim mesmo o pescoço,
Sou eu que sou doido, sou eu que sou anjo.

Sou eu que passeio as correntes e as asas
Por sobre as cidades que vou destruindo,
Sou eu o incêndio que lhes devora as casas,
O ladrão que entra quando estão dormindo.

Sou eu quem de noite lhes perturba o sono,
Lhes frustra o amor, lhes aperta a garganta.
Sou eu que os enforco numa corda de sonho
Que apodrece e cai mal o sol se levanta.

Sou eu quem de dia lhes cicia o tédio,
O tédio que pensam, que bebem e comem,
O tédio de serem sem nenhum remédio
A perfeita imagem do que for um homem.

Sou eu que partindo aos poucos lhes deixo
Uma herança de pragas e animais nocivos.
Sou eu que morrendo lhes segredo o horror
de serem inúteis e ficarem vivos.

Ary dos Santos 

quarta-feira, 25 de abril de 2012

25 de Abril


Isto vai meus amigos isto vai
um passo atrás são sempre dois em frente

e um povo verdadeiro não se trai

não quer gente mais gente que outra gente



Isto vai meus amigos isto vai
o que é preciso é ter sempre presente

que o presente é um tempo que se vai

e o futuro é o tempo resistente




 Depois da tempestade há a bonança
que é verde como a cor que tem a esperança

quando a água de Abril sobre nós cai.



O que é preciso é termos confiança
se fizermos de maio a nossa lança

isto vai meus amigos isto vai.


José Carlos Ary dos Santos