Um programador insensível e néscio fez projectar, para domingo último, às 22 e 20, no segundo canal da RTP, um admirável documentário de António-Pedro Vasconcelos sobre Eduardo Gageiro. Nesse mesmo tempo, a SIC exibia os Globos de Ouro, e comentadores preocupados discreteavam, filosoficamente, sobre a Taça de Portugal. Para quem ignora, para quem não quer saber, para os ressentidos e despeitados, Eduardo Gageiro é um dos maiores repórteres-fotográficos do mundo, cuja sensibilidade vive a par de um carácter amiúde combativo porque decente e asseado. António-Pedro viu muito bem a natureza rara deste grande artista, e conseguiu pô-lo a falar com límpida transparência, fornecendo-nos, e outros deponentes, a grandeza de um homem que, através da fotografia, tem revelado, como nenhum outro, a História de Portugal das seis últimas décadas. E que História! Eis a dor, o sofrimento, a fome e a miséria, a morte sem remorso nem remissa de um povo amado, comovidamente amado, por uma câmara que escolhe, selecciona, toma partido nítido e sem reserva pelos pés-descalços. É o Portugal que há, a pátria que temos e que Gageiro, com muitos mais, quis transformar. Tristemente, no final do documentário, diz: e chegámos a isto! O encontro de Vasconcelos com Gageiro é um momento extraordinário da nossa vida moral e cultural. O cineasta, não o esqueçamos!, é um intelectual extremamente culto (stendhaliano de mão diurna e mão nocturna), e as relações que estabelece entre a obra de Gageiro e a literatura e o cinema não são inócuas. Por exemplo: na parte final, quando o fotógrafo fala da doença que o assaltou e das imagens palustres que fixou, como se dissesse adeus à vida, as semelhanças entre o Tarkovsi de "Nostalghia" não são referências fortuitas.
Footprints - Praia do Castelejo, Vila do Bispo, Algarve
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quarta-feira, 21 de maio de 2014
sábado, 29 de março de 2014
quarta-feira, 19 de março de 2014
Eduardo Gageiro: 'Fidel disse-me que eu até lhe fazia a fotografia do bilhete de identidade'
Conseguiu pôr um cão ao colo de Cavaco e que Champalimaud calçasse umas luvas de boxe, mas não cumpriu o sonho de fazer um retrato de Fidel Castro. Apesar disso, anda sempre com uma fotografia do Comandante na carteira, para os amigos não lhe chamarem mentiroso. Natural de Sacavém, onde começou a trabalhar aos 12 anos na fábrica que hoje tem uma exposição dedicada à sua obra, Eduardo Gageiro fotografou em 70 países. Porém, são sobretudo as suas imagens a preto e branco de Lisboa que continuam a deliciar os amantes de fotografia.
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