Footprints - Praia do Castelejo, Vila do Bispo, Algarve
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sábado, 8 de agosto de 2015
Angústia a toda a hora
Os portugueses andam desiludidos com o Governo, já se sabe. Mas andam frustrados com a indolência do PS, que mais inclinado se mostra em pequenos exercícios vocabulares do que naquilo que comporta a própria essência do que está
em jogo. E o que está em causa não são jogos malabares, o cansaço da conversa sobre Sócrates (habilmente aproveitada pela Coligação) ou sobre António José Seguro. A encruzilhada de indefinições deixa os portugueses arfantes, e a ligeireza dos socialistas mais acentua a angústia. Essa angústia não é só ao jantar, para recordar o título de um
belo livro de Luís de Sttau Monteiro. Já viram o que seria se esta Coligação fosse vencedora? Haja Deus e haja Freud!
sexta-feira, 3 de julho de 2015
Encruzilhada
Algumas sondagens dão ‘empate técnico’, misteriosa frase, entre o PS e a Coligação. Não é de espantar, tendo em conta uma espécie de astenia criativa de António Costa e a presença constante em tudo o que é ‘evento’ de Passos, Portas e os seus. Além disso, o secretário-geral socialista tem de enfrentar a dissidência larvar no seu partido. Passados os primeiros momentos de euforia, a água deixou de fazer círculos, e as posições aclararam-se mais, embora sejam, ainda, um pouco difusas. E avantaja-se o facto de ser somente António Costa o orador de todas as circunstâncias, numa demonstração de isolamento que lhe é necessariamente prejudicial. As sondagens valem o que valem, dizem os incautos. E o exemplo do Reino Unido é apresentado como prova. Mas as sondagens sempre valem alguma coisa. Por outro lado, a voz e o gesto de Passos Coelho modificaram-se, tornando- se amenos, enquanto Portas é um sorriso encantador, e um pouco mais tolo. Que salvação ou indulgência pode haver para esta gente que, em nome de uma ideologia malsã, coloca um povo na miséria e arrasta-o para um infortúnio s em nome? Nem levemente me atrevo admitir a vitória da Direita, que não passa de pião das nicas de uma estratégia mais vasta e mais imunda, como se tem visto na questão grega. E que pensar da besuntice presunçosa do governo português, ante o que toda a gente já percebeu ser uma política de vexame a um povo decente e digno, com uma longa história de resistência e de combate? Que pensar?
quinta-feira, 25 de junho de 2015
A questão grega
O dr. Cavaco juntou-se aos intransigentes e decretou que não há excepções para os gregos. Os gregos continuam a dizer que estão permanentemente dispostos ao diálogo, sem que isso pressuponha terem de se humilhar ante os senhores da Europa. Não querem cortar nos salários e nas pensões, não querem aumentar os impostos ao nível da insanidade. Os gregos também querem decidir, e a verdade é que já condescenderam e abdicaram de muitas das suas concepções iniciais. Claro que neste conflito existe uma tenaz luta de classes. A Europa fraterna e solidária não existe nem nunca existiu. A princípio atirou umas migalhas para a periferia, e a periferia manifestou a sua gratidão, vergando-se ao novo esquema ideológico, saído de uma deformação moral. O dr. Cavaco pertence a essa indignidade, que tem colocado a Alemanha numa hegemonia perversa e as nações pequenas numa absoluta servidão.
quarta-feira, 17 de junho de 2015
Não é natural
José Lello e Marco António Costa subiram às primeiras páginas dos jornais suspeitos de ilicitudes. Juntam-se, assim, à lista de homens políticos sob investigação, o que não significa serem culpados. Mas o ressentimento português já os olha de soslaio, e, mesmo justos e honrados, a mancha dificilmente se lhes apagará. Culpa-se, agora, a Imprensa de uma espécie de cães de fila, vorazes e crudelíssimos, cujos dentes despedaçam aqueles que têm a infelicidade de tombar na sua ira. De um e do outro lado o exagero é evidente. Muitas injustiças têm sido cometidas, quando os julgamentos, antes de o serem, já o foram na praça pública. Mas quantas ofensas morais e outras têm sido reveladas graças ao zelo e à probidade de grandes profissionais; quantas?
quinta-feira, 4 de junho de 2015
quarta-feira, 22 de abril de 2015
O grito de um Viva!
As comemorações do 25 de Abril, no sábado, são duas, e definem a divisão do País. As "oficiais", em circuito fechado, vão dar azo a que o dr. Cavaco repita o chorrilho de inocuidades. Sem cravo na lapela, para não ofender os que restam, o cavalheiro, melancólico e soturno, parece deslocar-se para um funeral. Há uma certa verdade no quadro: ele não tem nada a ver com aquilo e, notadamente, está ali a fazer um frete. A Associação 25 de Abril, como o tem feito, vai estar ausente, alguns senhores ostentarão o cravo, toque de ‘A Portuguesa’, e a festa acaba, como se fora o cenotáfio de um morto, porém empalhado.
quarta-feira, 15 de abril de 2015
O candidato que não é
Com a habitual voz flébil, António Guterres anunciou, pela Euronews, num inglês incomparável, que não era candidato a candidato às eleições presidenciais portuguesas. Acabou, sem hesitação, com o miasma do boato que ele próprio alimentara. Está- -lhe no sangue este tipo de indecisões e evasivas. Acrescentou que gosta muito do trabalho exercido, e ambiciona continuar a carreira internacional que o bafejou: as fofas funções de alto comissário da ONU para os refugiados, cuja natureza meio mundo desconhece, e ao outro meio é indiferente. Com perdão da palavra, Guterres não tem perfil para Belém. Deu provas suficientes de ser um espírito hesitante, temeroso, com escassa coragem para enfrentar contrariedades, as mais minguadas, e sempre predisposto a escapulir-se, sem pudor nem dignidade, como o fez quando se demitiu do Governo. Conheço o homem há anos, das conspirações no gabinete de Soares Louro, na Cinevoz. Confesso que simpatizava com a cortesia constantemente demonstrada, e com a força vocabular com que defendia padrões e convicções.
quarta-feira, 8 de abril de 2015
Um trapalhão
Um preopinante de Direita, pelo qual manifesto um profundo desprezo, não por ser de Direita, naturalmente, mas por ser um contumaz trapalhão, escrevia, há semanas, que o marxismo fora uma epidemia na Europa continental, e não no Reino Unido. A mentira não encontrou opositor. O sujeito, há anos desacreditado, entrou numa acelerada degenerescência e as suas obsessões transformaram-se em patologias. Não basta enumerar os imensos estudos em Oxford e em Cambridge sobre o tema, como o resultado, ainda hoje notório, desses estudos. Chega indicar os livros, os debates e as conferências regularmente realizados naquele país. O articulista desejava reduzir à inexistência o conflito generalizado na sociedade portuguesa, e a luta de classes que, de há quatro anos a esta parte, assola Portugal. Aliás, segundo ele, não há luta de classes, outra mistificação do marxismo. A desonestidade intelectual tem um preço, e a ignorância premeditada constitui um nojo, que só um biltre pode incorporar, sem pejo nem um pingo de dignidade.
quarta-feira, 1 de abril de 2015
O nosso infortúnio
Há uns domingos, assisti à parte final da liturgia religiosa em uma igreja dos arredores de Lisboa. Não sou frequentador, nem habitual nem ocasional, mas fui atraído por um grupo de raparigas negras, que cantava e dançava com vestes coloridas e movimentos cadenciados e muito belos. Pareciam as bailadeiras da Zavala a cujas danças assisti, há muitos anos, próximo de Maputo. Findos os ritos, uma senhora muito antiga aproximou-se do cónego que oficiava e, acaso um pouco desabrida, perguntou-lhe: "Porque nos aconteceu isto?" Isto era a circunstância em que vivíamos, a malfadada época da fome, do desemprego, da miséria rastejante, não, claro!, o lindíssimo espectáculo a que assistíramos. Nada do infortúnio era previsível, apesar de Pedro Passos Coelho ter advertido, logo no começo das suas funções, que iria promover o empobrecimento do País para o salvar da bancarrota. A mentira como biombo das intenções. Os atingidos não foram os Belmiro, os Amorim, os Salgado, os Ulrich, claro!, sim os mais débeis, os desafortunados, os que povoam o mundo do trabalho. Como é evidente. "Ai aguentam, aguentam!," para recuperar a frase canónica do tal Ulrich.
quarta-feira, 18 de março de 2015
Assim vamos indo
Há dois anos, incapaz de promover a fixação das populações, com a hecatombe do encerramento de fábricas, de pequenas e médias empresas, o Governo veio ao proscénio e gritou aos portugueses: "Rua! Daqui para fora!" Passos apontou a fronteira, e o inexcedível Miguel Relvas corroborou a decisão com esta afirmação de grande acerto filosófico: "A emigração promove os conhecimentos da juventude." Mais de 350 mil jovens foram corridos da ditosa pátria amada; cerca de 8 por cento dos activos deixaram de participar na riqueza nacional; passámos da mediania à miséria e à fome mais afrontosas; e os velhos nem sequer figuram nos índices da existência, passando à categoria de zeros infinitesimais.
quarta-feira, 11 de março de 2015
Os jogos da infâmia
Com arfante curiosidade o mundo editorial aguarda o novo produto literário do dr. Cavaco. Os jornais não são omissos em revelar que o singular e volumoso livro, o nono da selecção «Roteiros», inclui um capítulo destinado a elucidar o sucessor do dr. Cavaco, no cadeirão de Belém, sobre como deve encarar e interpretar o mundo que aí vem. Reclama-se da experiência adquirida para justificar o acerto das suas opiniões. Pelos excertos que li na Imprensa, o pressuroso autor fala do que o sucessor deve fazer nos domínios da economia, da política europeia e, até, dos comportamentos. É uma redacção rudimentar, charra e chata, que omite, por exemplo, as urgências e necessidades culturais de um Presidente. Nem História, nem Geografia, nem conhecimentos gerais da nossa política no mundo, nem informações dos movimentos artístico-literários que, por vezes, agitaram o nosso viver. Uma palavra, sequer, da nossa ciência; da epopeia dos êxodos e das guerras civis; das aventuras do espírito. O vazio das referências corresponde ao vazio de ideias, e à conformação subtil de que os outros é que mandam, devendo nós, somente, obedecer. A teoria do «bom aluno», tão do agrado do dr. Cavaco e de seus seguidores.
quarta-feira, 4 de março de 2015
O dislate
António Costa chegou, falou e disse. E causou intenso burburinho entre socialistas, afins e mais ou menos, ao afirmar que estávamos melhor do que há quatro anos. A afirmação foi produzida ante uma assembleia de chineses, que, sorridentes e obsequiosos, não perceberam nada das palavras de Costa. A direita, toda a direita, sobretudo a mais tola, rejubilou. Exasperado, Alfredo Barroso, que nunca tropeçou no adjectivo, invectivou a «canalha» que está no poder no PS e «desvinculou-se» do partido que ajudou a fundar. Paulo Portas, cheio de volúpia no olhar, proclamou a seriedade de Costa e o seu patriotismo imarcescível que o impediam de dizer mal do país numa reunião com estrangeiros. Não há notícia de que foram trocados beijos por tão comovente depoimento e suas repercussões. Não se trata, aqui, de discutir o mérito ou o demérito da asserção. Trata-se, isso sim, de dizer que António Costa mentiu com fragor. Portugal, desde que estes súcias e peralvilhos treparam ao mando, perdeu população, perdeu trabalhadores, perdeu uma geração de moços, perdeu bens e cuidados, perdeu onde dormir, onde viver e onde respirar sem medo – e, sobretudo, perdeu o sentido de pátria, que constitui a substância com que se constroem as nações. Portugal é, hoje, um crisol de dor, de sofrimento, de desespero e de infortúnio. Um lugar de exílio, para recordar um grande poema de um grande poeta e um saudoso amigo: Daniel Filipe.
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015
Tristes ruínas
Há dias, numa dessas reuniões balofas, onde se diz estar a discutir-se o problema da Europa, assisti, repugnado e perplexo, a uma sessão de humilhações, cujos protagonistas eram a execrável Angela Merkel e o subalterno Pedro Passos Coelho. A madame caminhava, apressada e sisuda, seguida do obsequioso português, levemente curvado para não perder pitada do que a alemã lhe recomendava. Foi no dia em que Alexis Tsipras bateu de novo o pé a quem deseja impor-lhe uma coleira, em nome da "estabilidade" que toda a gente já percebeu impender para um só lado. No mesmo dia em que Passos Coelho deixou "para outra ocasião" cumprimentar o chefe do Governo grego, jubilosamente acolhido pelos outros circunstantes. Aconteça o que acontecer, o Syriza vai acumulando discretas vitórias, numa batalha tenaz e, à partida, de força desigual. Mas, perante a raiva mal dissimulada das forças que dominam a Europa, temos de nos entender quanto ao verdadeiro significado das palavras história, perseverança, honra e coragem. O cansaço com este sistema falsamente democrático começa a chegar à zona do estilhaço. Os partidos ditos tradicionais esgotaram-se no afã de alcançar uma hipotética hegemonia. A Alemanha presumiu adquirir, pela força da economia, uma supremacia que lhe tem sido negada quando usa as armas. Mas, mesmo nestas circunstâncias, só na aparência pacíficas, deixa atrás de si um rasto de miséria, desespero e morte. Com a cumplicidade de governantes como Passos, Hollande, Rajoy, e aqueles que antecederam estes. É uma vergonhosa capitulação, respaldada em ideologias e princípios notoriamente anti-humanos, que só poderão conduzir a catástrofes ainda mais extensas do que aquelas a que temos vindo a assistir.
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015
Trapalhadas
Sou um dos muitos milhares de portugueses que ouviram, pelas televisões, o dr. Cavaco dizer que, no Banco Espírito Santo, tudo corria no melhor dos mundos, e não havia lugar para sobressaltos. Dias depois, a hecatombe fez estremecer o sempre estranho mundo da Finança, e muitos dos portugueses que tinham ouvido e acreditado nas frases tranquilizadoras do dr. Cavaco ficaram espavoridos: haviam perdido investimentos considerados seguros, assim como as poupanças de uma vida. No seguimento deste infortúnio medonho, o dr. Cavaco voltou às televisões para dizer que não tinha dito o que dissera, pois nunca falara, nem sequer soletrara o acrónimo BES. Recentemente, o dr. Ricardo Salgado revelou que falara com o dr. Cavaco e com outros distintos. É preciso relembrar que o ilustre algarvio fora o assertivo autor, há anos não muito antigos, de frases lapidares como estas: recusava ler jornais, nunca se enganava, e raramente era assaltado pela dúvida.
quarta-feira, 28 de janeiro de 2015
Há mais caminhos
A lógica infecto-contagiosa, defendida pela execrável Merkel, de que não há alternativa àquela sob a qual vivemos foi pulverizada pela enorme vitória do partido grego. Já não se suporta o ‘rotativismo’ europeu, a alternância sem alternativa, que arrastou os países para a miséria, com excepção da Alemanha. Dois partidos têm servido os seus amos: o ‘socialista’ e o conservador sob diversos nomes. A Europa da solidariedade e da entreajuda foi subvertida pela decepção permanente. Os temas éticos, que constituíam o edifício da moral e mantinham a experiência democrática, deixaram de existir. Com passividade indignificante, os políticos entregaram a própria razão de ser à Alemanha. O reverente cortejo de chefes de Estado a Merkel lembra os veneradores do Império a obsequiar a pró-consulesa. Nunca a Europa ‘democrática’ desceu tão baixo. E as severas advertências feitas pela senhora alemã ao povo grego, logo que a vitória do Syriza começou a configurar-se, assumiram o registo de ameaça. O mesmo tom, aliás, foi utilizado por Juncker e, vejam só!, pelo balofo Durão Barroso, um dos casos mais desacrediantes de serventuário do poder.
quarta-feira, 14 de janeiro de 2015
O artifício
A imponente manifestação de Paris contra o terrorismo e a barbárie representa não só uma invulgar presença popular como uma instância ética que delimitou os campos e não misturou a história. Se eu pudesse estar lá, colocava-me na imensa mole dos que protestam com justa causa, sem os enfeites pérfidos que as circunstâncias talvez imponham, mas nunca justificam ou amenizam. Esclareçamo-nos: na primeira fila, compungidos, alinhavam-se chefes de Estado e de governo responsáveis ou cúmplices directos das maiores atrocidades da nossa época. A demonstração cívica resulta de um sentimento generalizado dos povos contra a selvajaria de que o terrorismo é uma face. Mas a responsabilidade oculta-se em muitos desses senhores, praticantes ou executantes do terrorismo de Estado, cuja falsidade é maquilhada pela compunção momentânea, aposta nas faces mentirosas, para a fotografia e para as câmaras de filmar.
quarta-feira, 24 de dezembro de 2014
Parábola de Natal
Comecei a vê-los assim que me aproximei do hospital. Eram umas dezenas: homens, mulheres, velhos, novos, alguns deficientes, todos encostados às paredes dos numerosos restaurantes que por ali havia. Esperavam os restos dos almoços, com disciplina e contenção. À distância, um carro da Polícia vigiava. Mas nada de sobressaltante acontecia. "Tudo calmo, por aqui", comunicava um dos agentes para a esquadra. O tempo era inclemente e a solidariedade parecia desempregada. Nas ruas, as pessoas não se cruzavam, trespassavam-se com a indiferença de quem apenas quer saber de si. Ia ver a minha mulher, que quebrara a perna esquerda em duas partes e os médicos preparavam-na para a engessar. Eu vira os ossos de perna dela expostos e ensanguentados e a imagem perturbara-me. Os nossos filhos iam vê-la, consoante a disponibilidade dos horários das escolas e os do hospital. O mais novo parecia que ronronava e estava constantemente a afagar-lhe o braço, com a cara encostava ao corpo dela. Contei-lhe das pessoas que aguardavam as sobras dos restaurantes, e de dois amigos nossos que tinham sido presos. Política, está bom de ver. O hospital, o de São Lázaro, estava repleto. Disse-me ela: "Há muito mais velhos do que novos. Os velhos caem em casa. Há alguns novos, mas a maioria é constituída por velhos que caíram em casa."
quarta-feira, 17 de dezembro de 2014
"A TAP é minha"
Um senhor do Governo veio dizer--nos que a privatização da TAP estava prevista desde o começo desta legislatura. O senhor do Governo (eles são tantos, que se torna difícil decorar-lhes os nomes) tem olhos de peixe morto e voz compulsiva: isto para melhor o identificar. Os protestos da Oposição atingiram a zona do confronto verbal mais tempestuoso. Desde "traição" ao abandono das nossas grandes empresas ao "capital financeiro multinacional", ouviu-se de tudo. A paixão sublinhou as intervenções, percebendo-se que a TAP não é assunto neutro, nem, apenas, mais uma companhia entregue à voracidade da ‘globalização’ que tem beneficiado, unicamente, os grandes interesses. A ‘globalização’, aliás, não é, só, o prolongamento do capitalismo; é a imposição de uma alternativa de contra-governo; seja: a ausência de decisões nacionais, em favor de uma ordenança específica. Os governos ficariam desprovidos das possibilidades de escolha, regulados pelas leis do mercado, afinal comandados pela alta finança. E a União Europeia mais não é do que uma hipótese da continuidade das ideias que formaram este poder absorvente que nos submete com absorção. A privatização da TAP pertence a esse projecto de controlo global. O Governo fala da inevitabilidade da venda. António Costa, por exemplo, entre muitos mais, desmente essa inevitabilidade, agitando o princípio de que a TAP é uma companhia "de bandeira", definição assaz enigmática. Viajei, durante toda a vida, com aquela companhia, possuo um indisfarçável sentimento de posse, sei o que ela representa para os portugueses lá de fora. A TAP não é unicamente uma empresa vendível ao sabor das circunstâncias, um negócio banal: é um estado d’alma, uma emoção, um pequeno orgulho e a módica vaidade que nos resta.
quarta-feira, 3 de dezembro de 2014
Um congresso
É justificável a euforia de socialistas e afins, no final do XX Congresso do PS. Ao enunciar os princípios do seu projecto, António Costa declinou qualquer associação com o PSD ou com o CDS. Embora não acrescentasse nada acerca de futuras coligações ou entendimentos, a módica afirmação tanto bastou para que Francisco Assis fugisse, espavorido, da magna reunião, sem mesmo usar da palavra, como estava combinado. Assis é a face visível da ala direita do partido, e o sonho mais embalador que acalenta será, acaso, uma união tão estreita entre o PS e o PSD que semelhe um casamento. Seguro, o doce e ameno Seguro, não era contrário a esta ideia fusionista e ia conduzindo o PS às falésias do abismo. A direita exultava, e o carinho com que tratava o meigo adversário não deixava de criar apoquentações nos socialistas que consideravam morganática aquela ligação. Nesse exacto momento, Costa emerge da sombra e do silêncio, apoiado e acicatado pelos socialistas que ainda não haviam deixado totalmente de o ser. Trepa a secretário-geral com a promessa vaga de que o PS ia "mudar".
quarta-feira, 26 de novembro de 2014
O dilema
Os nossos sentimentos ambivalentes em relação a José Sócrates não justificam o que o homem tem passado desde a última sexta-feira. Um pequeno biltre, cujo nome quero deixar fora deste texto, por questões de higiene mental, chegou ao ponto de urrar "Aleluia!", na hora da detenção do ex-primeiro-ministro. Mas as humilhações ‘oficiais’ por que passou superam qualquer entendimento. E há perguntas ainda sem resposta, uma das quais acaso mais pertinente do que outras. Sócrates sabia que seria detido logo que chegasse a Lisboa? As indicações levam-nos a acreditar que sim. E não só as fornecidas pela pompa mediática, reveladora de que a informação saíra de fonte judicial para dois jornais. Estes cumpriram o dever que lhes incumbe, embora a correspondência com a ética saia um pouco amolgada. Outra interrogação: as acusações a Sócrates serão mais pesadas e graves do que as que recaem em Ricardo Salgado, o qual vive no regalo da sua ‘villa’, enquanto Sócrates foi recambiado para Évora? Terceira: a presunção de inocência usou do mesmo peso e da mesma medida aplicados a Salgado, ao qual a caução de três milhões, para passear ao ar livre e não ser aferrolhado, chega a ser ultrajante, tomando em conta a fortuna de que se fala?
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