Footprints - Praia do Castelejo, Vila do Bispo, Algarve
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segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Nova bárbara escrava

Barborinha uma crioula: 
Faz de bahiana evocada
Num hotel de vidro e avenca;
Usa torço cor-de-rosa,
Pano-da-costa fingido,
Chambre crivado no seio:
Seu balangandã preserva-a
Bem menos que seu enleio.
Para não ver os meus olhos
– Figa branca, figa preta -
Atira-as pra trás nas costas,
Tão bem, que só vê diante
A cuia do vatapá:
Mas eu sei quantas pancadas,
Vindo assim, seu peito dá.
Peixinho moreno, pula
No aquário do hotel de luxo
Como gota de água ao céu:
Tem vergonha de ser mate,
O seu passo é como um véu.
Barborinha é uma crioula
(Mulatinha era demais):
As cores, à parte, são várias:
Unidinhas, são iguais.
Vem servir-me cor-de-rosa,
Parda me serve xinxim
(Pérfido, atraso o jantar
Fitando-a entro e mim).
Mas o que serve em verdade
A Barborinha morena,
Na sua saia bahiana
Com roda de campainha,
Não é o envisco que comem
Os peixes do hotel de vidro,
Mas a sua graça apenas.
Tão quente (sendo ela fria)!
E as mãos! as mãos! – tão pequenas,
Tão pequenas, que eu diria
Que as fazem penas – e fogem
As aves que há na Bahia!

sexta-feira, 20 de julho de 2012

A concha




foto: rogério barroso

A minha casa é concha. Como os bichos 
Segreguei-a de mim com paciência: 
Fechada de marés, a sonhos e a lixos, 
O horto e os muros só areia e ausência. 

Minha casa sou eu e os meus caprichos. 
O orgulho carregado de inocência 
Se às vezes dá uma varanda, vence-a 
O sal que os santos esboroou nos nichos. 

E telhadosa de vidro, e escadarias 
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso! 
Lareira aberta pelo vento, as salas frias. 

A minha casa... Mas é outra a história: 
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço, 
Sentado numa pedra de memória.

Vitorino Nemésio