Footprints - Praia do Castelejo, Vila do Bispo, Algarve

terça-feira, 8 de maio de 2012

Cântico Negro

"Vem por aqui" -  dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom se eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui"!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha mãe.

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis: "vem por aqui"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis machados, ferramentas, e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!

Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
- Sei que não vou por aí.

José Régio, Poemas de Deus e do Diabo

Fotos Minhas


photo: rogério barroso. Foto nº 267. Lisboa minha cidade.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Chave, Klee




És, como no Klee
a máquina de chilrear
a liquidez perfeita dos passos,
a música dos surdos.

Que húmido pilar
sustenta, amor, o paço
em que me acoito e durmo
que não seja teu canto

ao canto do meu dia?
És, como no Klee,
a virgem matemática
que tudo me desvenda

e sem que eu faça contas
calculas somas, sumos,
entre o covo das ondas
e azul astronomia.

És, como no mundo,
a pintura delida
de que sobrou apenas
um osso branco e flauta.

Pedro Tamen

Desabafo

Estou como o dia, chato.

Fotos Minhas


photo: rogério barroso. Foto nº 266 - Lisboa minha cidade.

Da minha janela


Olho pela vidraça da minha janela, mal consigo ver o Rio Tejo, um início de Maio chuvoso. O tempo não é o que era. Nos meus tempos de adolecestente, quando estudava no Barreiro, era usual faltarmos às aulas de Oficinas de Electricidade - aula de quatro horas e, irmos até ao Clube Naval, apanhar sol e, dar uns mergulhos no poluído rio, já lá vão cinquenta anos!
Este dia cinzento transportou-me à minha juventude; vá-se lá saber porque?
Saudades do tempo?
Não! Saudades do Sol.

Chove. Há Silêncio Chove

Há silêncio, porque a mesma chuva
Não faz ruído senão com sossego.
Chove. O céu dorme. Quando a alma é viúva
Do que não sabe, o sentimento é cego.
Chove. Meu ser (quem sou) renego...

Tão calma é a chuva que se solta no ar
(Nem parece de nuvens) que parece
Que não é chuva, mas um sussurrar
Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece.
Chove. Nada apetece...

Não paira vento, não há céu que eu sinta.
Chove longínqua e indistintamente,
Como uma coisa certa que nos minta,
Como um grande desejo que nos mente.
Chove. Nada em mim sente...

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

Fotos Minhas


photo: rogério barroso. Foto nº 265 - Da minha janela.

Estrellas del arte urbano



Un total de 19 artistas participarán, a partir de este lunes, en el Festival de Arte Urbano Poliniza 2012, que impulsa la Universitat Politècnica de Valencia (UPV). Nacido en 2006, el certamen se ha convertido en un encuentro "de referencia" internacional en el que ya han participado más de 200 artistas urbanos. Entre ellos, un total de 103 grafiteros de países tan distintos como Italia, Alemania, México, Holanda, Francia, Colombia, Cuba, Ucrania, Polonia, Chile, Bélgica, Argentina y España.

Chuck Leavell - "Georgia On My Mind" Solo