Footprints - Praia do Castelejo, Vila do Bispo, Algarve
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quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Tu tens belos olhos e tu sabes

A guerra vinha outra vez aí, em 1938 era já amanhã. O Havre foi a primeira cidade em que vi neve, e a primeira vez que vi o Havre só chovia. O Havre é um cais, parte-se ou chega-se, passa-se. Foi lá filmado Quai des Brumes, o cais das brumas. Jean Gabin andava com um cão, era desertor e o cão seguia-o, duas solidões a preto e branco, tudo cinzento. Havia um pintor desesperado: "Quando pinto um nadador, vejo um afogado." Havia um velho desabusado que cobiçava a enteada. As esperanças tinham acabado para a Europa. O filme estava para ser uma parceria franco-alemã, mas os estúdios alemães da UFA acharam-no decadente.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Pai da frase "eixo do mal" vota em Hillary Clinton

Lara, brasileira de 16 anos, não gostou de uma foto de dois compatriotas, em São Paulo. Na foto, uma mulher e um homem empunham, cada um, o seu cartaz: "Mulheres com Trump" e "Gays com Trump". A adolescente pôs a foto no Twitter e deixou uma mensagem sua, curta: "Árvores pela desflorestação". Também podia ter posto "Judeus por Hitler", mas foi mais subtil. O tweet, em inglês, teve repercussão internacional.
O gesto foi gratuito (embora com centenas de milhares de visualizações) e o campeão deste episódio, Donald Trump, pode ser acusado de muita coisa, mas não de desempregar humoristas. Jimmy Fallon, Stephen Colbert, Trevor Noah, John Oliver, a nata dos humoristas televisivos, têm há meses um homem ridículo para lhes incentivar a imaginação - e não se fizeram rogados. Trump merecia uma estatueta Emmy, 2016, de humor involuntário. Se, apesar disso, ele ganha as eleições, há que reconhecer que os artistas falharam.

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Enfim, um gatuno com cara de gente

Ontem, Isabel Paulo, jornalista do Expresso, escreveu sobre a Quina. O cartão de vista desta deveria ser "Quina Carteirista, 85 anos", tudo dito. Entretanto, em cada Queima das Fitas do Porto, lá está ela nos noticiários: apanhada com a mão na massa dos outros. No ano passado, a vítima, de 92 anos, perdoou-lhe, já no Tribunal de Pequena Instância do Porto. É isto o que não se entende na justiça portuguesa: um crime envolvendo 186 anos é considerado menor... Este ano, na rua onde mora a Quina, já se faziam apostas: volta ela ou não à Queima da Fitas? "Ganharam os que porfiavam que sim", disse uma vizinha. Só por esse falar tão limpo já valia a reportagem. Então, lá voltou Quina ao cortejo dos estudantes (dos colegas, enfim: nos anos 50, havia uma "universidade da Areosa", onde os carteiristas faziam exame em manequins com guizos).

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Bancos, não é por maldade é mesmo não saber

O governo anterior não fez nada sobre o Banif porque não sabia o que fazer. Mas o novo ministro das Finanças diz outra coisa. Ontem, Mário Centeno relacionou a não atuação do governo de Passos com "factos como o fecho do programa de ajustamento e as eleições". Isto é, eles adiaram a solução do Banif de forma a não incomodar a "saída limpa" (da intervenção da troika) e para "limparem" as eleições. A acusação é assassina. Centeno diz que governantes desgovernaram para tirar proveito. Com a troika, apresentando um mérito que não tiveram; na campanha, escondendo uma falha. Porém, eis o meu ponto, há falta maior. Mais grave é a notória ineficácia dos portugueses com as finanças. No topo, incapacita na gestão de bancos e do país. E isso está para lá da trafulhice, é mais fundo do que o roubo. Não podem, não sabem.

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Querem um conselho? Adiem os conselheiros

A notícia: a substituição dos conselheiros de Estado, na quota dos eleitos pelo Parlamento, dará cinco novos conselheiros. O órgão e a função são tão pouco conhecidos que é prudente lembrar: o Conselho de Estado aconselha o PR. Eu julgo, tendo em vista a data da eleição, já para a semana, que se esqueceram desse pormenor. Não vos parece despropositado eleger, já, cinco pessoas que vão aconselhar outra que acaba a função dentro de semanas? E sem conhecer, ainda, aquela que elas vão servir durante os próximos anos? É que a importância dos conse-lheiros vale pelo aconselhado. Por exemplo, apontar o caminho certo a quem tem a mania de contrariar pode até ser perigoso. Na crise política que vivemos recentemente, o atual Presidente ignorou os conselhos do Conselho de Estado. Isso diz pouco dos conselheiros, e muito sobre o renitente aconselhado (sabe-se que os conselhos são mal recebidos por quem mais precisa deles). Para aconselhar o atual Presidente, que é alguém um bocado..., digamos, falho de imaginação, eu veria bem cinco tipos estimulantes.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

A oposição já tem programa: abolir o hífen!

Primeiro-ministro, a palavra, é o tabu da oposição. Um deputado do PSD que passe por um governante e diga "o amigo é o primeiro ministro que vejo hoje nos corredores", sublinharia logo: "Primeiro ministro sem hífen, atenção!" À direita, a palavra "primeiro-ministro" está tão banida como "bomba" em aeroporto americano. Esta semana, na discussão do programa do Governo, Passos Coelho disse: "Este Governo, assim como o seu chefe..." Kaput ao inominável cargo! Como Portas é só líder secundário da oposição, já pode ser menos radical: "Senhor primeiro-ministro, vírgula, mas senhor primeiro-ministro que o povo não escolheu." E Telmo Correia, ainda mais secundário, também pode dizer o palavrão, já que lhe acrescenta a irrisão: "Primeiro-ministro não eleito."

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Peço desculpa ao cidadão Miguel Macedo

Não sei datar (procurando, encontro: lei 20/2013, de 21 de fevereiro, mas só o escrevo para os adeptos de ninharias) o que permite filmar o interrogatório dum arguido, nem me apetece saber o que arguido significa, mas sei o que é um homem ou uma mulher. Eu não sei se havendo "registo audiovisual", seja lá isso o que for, vai "constar dos autos", e com isso só fico sabendo, pela linguagem de ranhosos, que vai acabar mal. Mas mesmo sabendo prossigo. Eu não sei se a divulgação de tais "registos" está proibida "nos termos do..."

terça-feira, 1 de outubro de 2013

E que faço eu com um Rato Mickey?

Diziam antes os analistas: "No domingo é que é a verdadeira sondagem!" Mas apareceu a sondagem - que não sem razão é palavra que vem de sonda, instrumento para nos indicar a profundidade das águas - e todos se puseram a contar os telhados das câmaras ganhas. Ora isto faz-se com os dedos, um ábaco ou com o calculator do telemóvel, soma-se e, em dando 150 para o partido mais votado e o partido seguinte ficar só com 106, ganha o primeiro. Não me dei ao trabalho de recontagens porque em questão de câmaras basta-me uma, onde moro (e fiquei bem servido).

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Bandeiradas à moda da Noruega

O táxi parou, entrei e espantei-me com o taxista: "O sr. é o primeiro-ministro, não é?" E ele, olhando-me pelo retrovisor: "Ah, reconheceu-me logo!" E eu: "Claro, devia ser a tarifa 1 e você pôs a 3!" Mais tarde, noutro táxi, também me surpreendi com o motorista: "O sr. é o Portas, não é?" E ele: "É, prometi deixar isto, mas fiz marcha atrás." O táxi seguinte tinha no tablier um cartão colorido com o nome "Tó Zé" e uma flecha a apontar para o taxista.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

O corte das reformas explicado aos tansos

Os cortes são, portanto, para todos os reformados do Estado. Todos? Isso, todos. Mas mesmo todos, todinhos? Todinhos, com exceção de juízes, magistrados do Ministério Público, militares e diplomatas, claro. Claro porquê? Claro porque as reformas desses estão indexadas ao salário dos trabalhadores no ativo. E isso quer dizer o quê? O que está lá escrito, preto no branco: as reformas desses estão indexadas ao salário dos trabalhadores no ativo. As palavras já ouvi, mas que querem dizer? Eu traduzo: Muzyk yn de brede sin fan it wurd. OK, OK, mas porquê beneficiar exatamente militares? Porque são das Forças Armadas. E...?! 

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Portas é uma fronteira aberta

Há dias, acerca da taxa sobre pensões, Paulo Portas foi claro: "Esta é a fronteira que eu não posso deixar passar!" Dita com o ponto de exclamação que não admite recuo, posto por aqueles seus olhos coruscantes, queixo levantado e dedo em riste. Nem sei como ele não se inspirou no Churchill que tanto aprecia: "Só tenho para oferecer sangue, sofrimento, lágrimas, suor e népias de taxa sobre pensões." Em todo o caso, informou cabalmente Passos da sua posição: "O primeiro-ministro sabe e creio ter compreendido."