Footprints - Praia do Castelejo, Vila do Bispo, Algarve
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segunda-feira, 14 de novembro de 2016

A vida entre as cinzas

Não erramos se dissermos que um ano depois o Mundo continua a girar fora dos eixos. Todos os meses o terrorismo faz centenas de vítimas, algumas em lugares tão distantes de nós que não vão além de uma breve nos jornais. Em Mossul, os combatentes do Daesh executam civis e estão a acumular reservas de amónia e enxofre, fazendo aumentar os receios de ataques químicos.
Um ano depois o turismo ainda se ressente do medo, em Paris. A cooperação e o aprofundamento da capacidade policial não produziram mais do que medidas incipientes. Bélgica e Alemanha sofreram ondas de choque difíceis de interpretar. A Europa passou longos meses a discutir sanções e metas económicas, mais do que a investir na sua coesão e renovação.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Juízos e juízes

O arrastamento de processos judiciais prejudica todos os intervenientes, mas é particularmente penalizador quando envolve figuras públicas. Os dados processuais vão sendo retalhados, divulgados consoante o gosto e julgados ao estilo de um dérbi futebolístico. Na Operação Marquês, que envolve um ex-primeiro-ministro e ex-dirigente partidário, a simplificação agrava-se. Como se apenas fosse possível estar-se ou a favor de José Sócrates, empenhado em apresentar-se como vítima de cabala e de perseguição, ou a favor de Carlos Alexandre, o superjuiz que não teme os poderosos.
A justiça merece ser tratada com mais seriedade.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Da caridadezinha

Na sua raiz latina, a palavra caridade deriva de "caritas": amor. Ao longo do tempo, devido à forma crítica de entender o assistencialismo a quem precisa de ajuda, a palavra foi ganhando uma conotação negativa. Hoje fala-se em caridade e há quem sinta um calafrio ou esboce um sorriso trocista. Caridade soa a esmola. Ao ato de dar sobras ao outro. Perpetuando uma relação de desigualdade e de dependência.
As palavras nunca são neutras. E algumas conseguem anular o efeito produzido por ações. Ou pelo menos contaminá-las. Isabel Jonet tem décadas de dedicação a uma causa. O Banco Alimentar Contra a Fome tem sido a chave para minimizar os efeitos da pobreza junto de milhares de famílias. E no entanto lapsos que alimentaram acesos debates nas redes sociais, à volta do tamanho de bifes ou do desemprego, colaram-lhe à pele etiquetas injustas.

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Platão imaginou Trump

Ted Cruz e John Kasich não tinham ainda desistido da corrida para a candidatura republicana às presidenciais nos Estados Unidos, quando o jornalista e escritor Andrew Sullivan publicou um artigo sobre o "Fim da democracia", no qual considera que a América está mais exposta do que nunca à tirania. Recuando a Platão, enuncia os riscos da total abertura democrática, que acaba por implicar dar voz aos seus contrários. E considera Donald Trump um dos sinais da entrada num período pós-democrático, em que o discurso xenófobo, estigmatizante e cheio de conceitos totalitários encontra um espaço inesperado de aceitação.

sábado, 2 de janeiro de 2016

Overdose sem sal

Foi com uma intervenção sem sal que Cavaco Silva se despediu das tradicionais mensagens de Ano Novo ao país, confirmando que o seu canto de cisne foram as palavras crispadas dirigidas contra os partidos de Esquerda aquando da indigitação de Passos Coelho. Palavras que, poucos dias depois, foi obrigado a engolir, aceitando que António Costa assumisse o cargo de primeiro-ministro.
É igualmente insossa que se anuncia a pré-campanha para as Presidenciais deste mês, que ontem fez arrancar nas televisões a maratona de debates previstos até ao próximo dia 9. Ao mesmo tempo que o presidente do passado falava aos portugueses, os telespectadores mais pacientes puderam circular por diferentes canais e ouvir as propostas de quem preferem para o futuro.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Fogo de artifício

Nos últimos dias do ano, multiplicam-se os balanços e as listas que destacam o melhor e o pior do calendário prestes a virar de página. É tempo de perspetivar oportunidades, formular votos de mudança e de renovação, sonhar projetos e acreditar que, desta vez, tudo será diferente. Nada no correr das horas se altera, mas por instantes vivemos como se todas as possibilidades nos fossem dadas.
O ano de 2015 termina com um novo Governo saído de uma discutida alteração na forma de interpretar a configuração do Parlamento. E o de 2016 começa com uma nova campanha e ida às urnas para escolher o presidente da República. O próximo chefe de Estado poderá vir a ter um papel crucial, se os equilíbrios que suportam o Governo socialista se revelarem precários. Mas essa tentação de olhar para Belém como contrapeso de São Bento não deve enviesar a eleição efetivamente em causa.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Nos extremos

O efeito barragem funcionou. Marine Le Pen e a sobrinha Marion, que há uma semana cantaram vitória, foram derrotadas na segunda volta das eleições regionais em França graças à desistência dos candidatos socialistas, em favor do partido de centro-direita Os Republicanos. A esta concentração de voto nas regiões em que as duas principais figuras da Frente Nacional concorriam, juntou-se a mobilização dos eleitores. Depois de uma primeira volta com uma abstenção gigantesca de 50,9%, ontem a afluência às urnas subiu em quase dez pontos percentuais.
A derrota da Frente Nacional é a prova do quanto os cenários podem mudar com uma mobilização forte do eleitorado. Cada um dos votos conta, sim. E se o modelo eleitoral não contemplasse duas voltas, o mapa final dos resultados teria sido significativamente diferente. Confrontados com o avanço esmagador da extrema-direita, os franceses disseram "não".

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Memória curta

O tempo da política é sempre imediato. E abusa o mais que consegue das acrobacias permitidas pela memória curta. Mas há piruetas que, de tão rebuscadas, não enganam nem sequer o mais distraído dos portugueses que tem assistido à forma agressiva de bater bolas com que os políticos, mais bipolarizados que nunca, se têm entretido nas últimas semanas.
Marco António Costa, vice-presidente do PSD, assumiu ontem que é tempo de ser oposição, fiscalizando a "defesa do interesse nacional". Esta declaração seria responsável e séria, se não estivesse armadilhada no que a antecedeu e no que lhe sucedeu. Em ambos os casos, pelo meio das habituais expressões de que o poder foi tomado "de assalto", Marco António Costa referiu-se a contas.

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Sem pressa

A abolição dos exames no final do primeiro ciclo merece o aplauso inequívoco de muitos pais e professores. Promover uma cultura de exigência não significa criar sobre crianças de 9 ou 10 anos uma pressão desnecessária e, pior, orientar todo um ano de trabalho para a preparação daquelas duas ou três horas de avaliação que ganham uma dimensão exagerada.
O problema não é a ansiedade que se possa estar a criar entre os mais novos. A questão é de fundo e parte de uma visão da escola focada em rankings e notas, mais do que em inclusão e diversidade. Um sistema que sobrevaloriza as metas e as médias, mas deixa pouca margem de manobra para atividades extraprograma igualmente importantes para abrir horizontes e estimular a curiosidade.