Estamos no segundo processo orçamental em que o tema não são as
privatizações, os cortes ou o aumento de impostos sobre o trabalho, mas o
aumento das pensões, do salário mínimo e a eliminação da sobretaxa. A Direita está fora de jogo. No seu programa eleitoral defendia o
congelamento das pensões e a manutenção dos cortes. Como pode agora dar a
cara por esse programa? Na falta de uma Direita parlamentar capaz de
ser Oposição, as elites movem-se e organizam-se. Não é tanto o Orçamento
que as preocupa, mas o que acontece para lá dele: o aumento do salário
mínimo e os avanços no combate à precariedade.
Footprints - Praia do Castelejo, Vila do Bispo, Algarve
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terça-feira, 22 de novembro de 2016
terça-feira, 20 de setembro de 2016
Não se pode agradar a todos, Rui Moreira
O presidente da Câmara do Porto escreveu
há dias um inflamado artigo contra o que apelidou de "Saque Mortágua". O
que parece incomodar Rui Moreira é que a receita do imposto sobre
imóveis de luxo reverte para o Estado e não para os municípios. Mas,
como este argumento é fraco, o autarca do Porto juntou-se à vozearia da
Direita que tudo diz para confundir e assustar milhões de pessoas que
nunca serão visados por este imposto.
A
parte divertida da crítica de Rui Moreira é a exigência de receber no
município a receita do tal "saque" que veio denunciar. No mesmo artigo,
ainda se queixa do Governo porque impediu um aumento do IMI.
quarta-feira, 7 de setembro de 2016
Stiglitz, o herege
Esta
semana começou com o "baque" causado por Joseph Stiglitz, prémio Nobel
da Economia, ao afirmar que os custos da permanência no euro são
insustentáveis para Portugal. O economista defende mesmo que o melhor
para a Europa seria um "divórcio amigável" de alguns países.
O
furor em torno da notícia só existe porque na Europa e, muito
particularmente, em Portugal se alimentou a ideia de que o euro e a sua
construção eram inquestionáveis, indiscutíveis, incriticáveis.
Obcecados
pela defesa do seu próprio status quo, eurocratas, instituições e
políticos do "consenso europeu" ergueram muros e cerraram fileiras.
Rotularam como radicais irresponsáveis todos os que ousaram criticar os
caminhos de Bruxelas, recusaram-se a ver os erros e esmagaram todas as
alternativas concretas, como a experiência grega.
terça-feira, 2 de agosto de 2016
Bodes expiatórios
O episódio, bem ao jeito arrogante e
despótico do ministro alemão, já se repetiu: quando confrontado com os
problemas do seu sistema bancário, o governante dispara publicamente
contra Portugal. Em fevereiro assegurava que o país não tinha
resiliência financeira e, seis meses depois, criava propositadamente um
incidente em torno de um falso segundo resgate a Portugal.
A
estratégia de Schäuble é descarada, mas não é nova. Desde a crise que a
elite burocrática europeia se aliou ao poder financeiro e aos grupos
políticos de Direita para garantir o business as usual.
terça-feira, 5 de julho de 2016
Os sancionalistas
Os sancionalistas usam um pin da bandeira portuguesa na lapela. Quando
um governante alemão mente em público para atiçar os especuladores
contra Portugal, o sancionalista compreende. Quando um eurocrata ataca a
maioria parlamentar portuguesa para desviar as atenções da crise do
Deutsche Bank, o sancionalista confirma as suas preocupações e diz, como
Maria Luís Albuquerque: "Se eu fosse ministra, não havia sanções".
Quando um responsável eleito pelo povo se insurge contra a ingerência de
Bruxelas em opções da democracia portuguesa, o sancionalista franze as
sobrancelhas e, como Passos Coelho, condena quem "usa tese do inimigo
externo" contra os nossos protetores de Berlim.
terça-feira, 21 de junho de 2016
Caixa, mas sem surpresas, por favor
Já foi dito e repetido: a CGD é o maior banco do sistema, com cerca de
71 mil milhões de ativos. Tendo em conta as exigências mais apertadas em
termos de rácios de capital e a desvalorização por causa da crise, é
normal que a Caixa precise de recapitalização. A questão está em saber
quanto será necessário para que o banco possa assumir todas as suas
perdas e, a partir daí, concentrar-se em ser aquilo que sempre deveria
ter sido: um banco público com o desígnio claro de financiamento da
economia produtiva.
terça-feira, 31 de maio de 2016
Keynes, os seus netos e os estivadores
Em 1931, apesar dos sinais daquela que
viria a ser conhecida como A Grande Depressão, Keynes escreveu um artigo
otimista chamado "Possibilidades económicas para os nosso netos". Nele
discutia como, lá para 2030, a sociedade teria produzido riqueza
suficiente para o trabalho, reduzido a 15h semanais, se tornar uma
questão de realização pessoal. A Humanidade - livre da obsessão pela
acumulação - reaprenderia a viver em função do prazer e da cultura.
Keynes
estava certo numa coisa: a riqueza e os níveis de vida aumentaram.
Estava errado noutra: a acumulação de riqueza não foi distribuída pela
sociedade, concentrou-se, em parte à custa de novas formas de exploração
do rabalho. Keynes não contava com a precariedade.
terça-feira, 3 de maio de 2016
O que será do Algarve?
Ao que
consta, Jorge Moreira da Silva, ministro do Ambiente de Passos Coelho,
será um dos candidatos finalistas a um alto cargo dentro da ONU para as
alterações climáticas.
Enquanto
ministro, Moreira da Silva concessionou metade do distrito de Faro e
uma parcela igualmente impressionante da orla marítima algarvia para a
prospeção e exploração de petróleo. A concessão foi feita com base numa
lei caquética, datada de 1994, quando o aquecimento global e as
preocupações ambientais eram considerados fantasias de doidos. Hoje
sabemos que fantasia é ignorar a sua existência, e é por isso que
existe, aliás, um cargo na ONU dedicado à matéria.
terça-feira, 26 de abril de 2016
Quem não offshora não mama
O mundo offshore é um sistema paralelo que tem, ao longo dos
anos, funcionado com a complacência e cumplicidade do resto do Mundo.
O sigilo bancário, os benefícios fiscais e
a benevolência regulatória favorecem os negócios e as transações mais
variadas: do planeamento fiscal agressivo à evasão fiscal, da
contabilidade criativa à fraude contabilística, tudo é mais fácil, e
tudo se confunde. No limite, o sigilo que protege o verdadeiro
beneficiário de um negócio de compra e venda de ações é o mesmo que
permite o branqueamento de capitais do tráfico de droga, ou que financia
o terrorismo.
A possibilidade de fuga e
fraude fiscal é, provavelmente, um dos maiores fatores de atração
destes territórios. E para isso não é preciso sequer recorrer aos
offshore do tipo mais "agressivo".
terça-feira, 19 de abril de 2016
Velhos problemas no Novo Banco
Foram publicadas as contas mais recentes do Novo Banco. Trazem
duas reservas por parte da auditora (PWC) que não são de menosprezar. A
primeira decorre da exposição do Novo Banco ao antigo BESA. Lembram-se
com certeza que o BES era o dono do BESA, e que o BESA devia muito
dinheiro ao BES por ter andado a fazer empréstimos sem garantia a
figuras que se suspeita serem próximas do regime angolano. Tanto assim é
que José Eduardo dos Santos pôs o Estado angolano a garantir essa
dívida de 3300 milhões de euros. Pois bem, a verdade é que, no fim, o
BES e o BESA faliram e a garantia sumiu-se.
quarta-feira, 13 de abril de 2016
15 minutos
Tive há dias uma conversa com um
desconhecido a pretexto dos Panamá Papers. O homem, cujo nome não
cheguei a saber, contou-me como tinha criado um, nos anos 90, para
esconder menos de um milhão de contos de um negócio que não percebi. A
recomendação veio de um amigo, e do gestor de conta do seu banco, que
entretanto o encaminharam para um advogado, que cobrou uns bons milhares
pela operação. Não havia grande moral nisto, apenas a noção de que o
recurso a offshore para esconder dinheiro, ou pagar menos impostos, é
bem mais generalizado e antigo do que se pensa.
O mais útil, acho eu, veio a seguir.
terça-feira, 16 de fevereiro de 2016
É mesmo, Schäuble?
Verão de 2007. Portugal estava a banhos e
descansava sobre um crescimento económico de quase 2,5%, a que se
juntava o défice abaixo das exigências de Bruxelas e uma dívida de 68%
do PIB.
Do lado de lá do mar, o sentimento era outro. O Lehman
Brothers mostrava os primeiros sinais de instabilidade. Ainda assim,
ninguém fez grande caso, até o banco apresentar perdas de 3900 milhões,
deixando os mercados em estado de sítio. O resto da história já sabemos.
O fim da bolha do imobiliário norte-americana deixou o sistema europeu
em apuros, secou o financiamento à atividade económica e obrigou a
gigantescos resgates com dinheiro dos contribuintes.
terça-feira, 26 de janeiro de 2016
A ousadia de Marisa
Marisa Matias ousou, e
com a sua ousadia mostrou que, na política como na vida, o guião não
está escrito. Ousou quando se atreveu a candidatar-se a um cargo que
muitos julgam reservado à reforma política de detentores de títulos -
mesmo que os títulos não correspondam a clareza de ideias e que a idade
seja inversamente proporcional à coerência do percurso.
Ousou
quando fez uma campanha de rua, de gente e de comoção sem com isso
desgraduar a política e a profundidade do debate necessário. Respeitou
assim cada pessoa a quem pediu um voto de confiança.
Ousou ainda
pensar fora da caixa das inevitabilidades, onde se invertem prioridades
para considerar aceitável, ainda que tremendamente aborrecido, lançar
mais dinheiro dos contribuintes para a Banca privada. Foi talvez por
isso a única a rejeitar à partida a opção para o Banif.
terça-feira, 5 de janeiro de 2016
Curiosas coincidências
Trezentos e quatro mil e oitocentos euros (304 800euro) é quanto Sérgio Monteiro vai receber ao longo dos próximos
12 meses para vender o Novo Banco. Sabemo-lo porque, finalmente, o
Banco de Portugal publicou o contrato que assinou com o antigo
secretário de Estado do Governo PSD/CDS.
terça-feira, 22 de dezembro de 2015
Cara de saída limpa
Durante os anos em que o Banif beneficiou da ajuda do Estado, apresentou nada menos que oito planos de reestruturação às autoridades europeias, todos chumbados. Apesar disso, ao fim de quase dois anos como administrador do Banif, António Varela foi promovido e recebeu a responsabilidade pela supervisão prudencial no Banco de Portugal. Sob a governação de Carlos Costa, um dedo especial parece escolher os protegidos de Passos e Portas.
terça-feira, 15 de dezembro de 2015
Os vistos e os escondidos
Os vistos gold são como os offshores. O
problema não está no abuso, mas na sua existência, já que ambos os
regimes foram criados para facilitar o abuso. Não era difícil antecipar
os resultados de um regime que escancara as portas do país e da Europa à
entrada de capital estrangeiro mediante o "investimento" de 500 mil
euros. Especulação, branqueamento de capitais, corrupção são apenas
algumas das consequências previsíveis do esquema criado pelo Governo de
Portas e Passos. À data, quando denunciávamos os perigos da coisa,
éramos rapidamente acusados de uma qualquer estirpe de radicalismo
ideológico. Quem não se lembra das promessas vitoriosas de Paulo Portas
sobre os futuros postos de trabalho criados pelos visto gold? Está hoje
por saber qual será o número maior: o dos empregos criados ou o dos
arguidos na Operação Labirinto...
terça-feira, 8 de dezembro de 2015
O predador
Foi diretor do Caixa BI, o banco de
investimento da CGD, onde se especializou em parcerias público-privadas.
Esteve do lado da banca, a desenhar a estrutura financeira dos
contratos que mais tarde se revelaram ruinosos para o Estado: as PPP
rodoviárias da Beira Interior, do Pinhal Interior, do Litoral Oeste, do
Baixo Tejo, do Baixo Alentejo, do Litoral Algarve, entre outras. Foi
ainda enquanto representante do consórcio privado ELOS que assinou o
contrato de financiamento, e respetivos swap, associados à construção da
linha de TGV Poceirão-Caia entretanto cancelada. No processo foi
nomeado administrador-executivo do banco.
terça-feira, 1 de dezembro de 2015
Quando o imoral se torna banal
Miguel Horta e Costa, administrador da
ESCOM, empresa do Grupo Espírito Santo, esteve na Comissão de Inquérito
ao BES para explicar o seu envolvimento na compra de dois submarinos
pelo Estado Português. Lembro que, à data, tentávamos descobrir o
circuito dos 16 milhões de euros pagos pelo consórcio alemão GSC a
título de comissão à ESCOM. Já a meio da audição, Horta e Costa resolve
explicar o porquê de o dinheiro ter circulado tanto, bem como o
paradeiro de 6 milhões: não foi corrupção, era mesmo só para fugir ao
Fisco, e o dinheiro em falta serviu para pagar aos advogados, bancos de
investimento e assessorias que construíram a operação.
terça-feira, 24 de novembro de 2015
Cavacabou-se
Quem foi estudante nos anos 90, lembrar-se-á da repressão ao movimento gerado pela introdução da elitista PGA (Prova Geral de Acesso). Quem esteve na Ponte 25 de Abril, em 1994, tem memória da violência da resposta aos protestos. Aos outros que vieram mais tarde, como eu, e que não se deixaram levar pela imagem hipócrita do "não político", fica a ideia de um homem mal habituado à democracia, e por demais comprometido com conhecidos banksters (sim, falo do BPN).
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