O tempo corre, valha-nos Deus, como corre! Íamos a meio de 2016 quando
um simples jogo para telemóveis pareceu enlouquecer o Mundo, prestes a
acabar. Ocupou-nos horas e desoras de noticiários. Pessoas aos magotes,
caminhando como zombies, invadiam praças, museus, estações, por vezes os
lugares mais estranhos, à caça de Pokémon, Pikachu e outros monstrinhos
virtuais que nos entraram pelo verão adentro. Em poucos dias, o
videojogo da realidade aumentada foi carregado na memória de mais de 200
milhões de smartphones e fez disparar os lucros da sua empresa
criadora, a japonesa Nintendo. Aqui e acolá houve acidentes e tumultos, e
até as polícias emitiram advertências.
Footprints - Praia do Castelejo, Vila do Bispo, Algarve
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domingo, 19 de fevereiro de 2017
domingo, 11 de dezembro de 2016
Cavaleiro e cavalgadura
Amanhã, há um de entre nós que vai falar
para o Mundo, a toda a largura dos seus dramas e dos seus sonhos. É em Nova Iorque, e o presidente Marcelo e o primeiro-ministro Costa estarão
lá a representar-nos, como orgulhosas testemunhas. Eleito e aclamado
secretário-geral da ONU, António Guterres jura perante representantes de
193 países que cumprirá com lealdade as obrigações da Carta das Nações
Unidas que a todos compromete.
Guterres,
que sucede ao sul-coreano Ban Ki-moon, será o nono secretário-geral
desde a fundação da ONU, e o quarto europeu (o último foi o austríaco
Kurt Waldheim, de 1971 a 1982) a desempenhar as funções de "principal
funcionário" da organização criada em 1945 para "prevenir as gerações
vindoiras dos flagelos da guerra" e "reafirmar a fé das nações nos
direitos, na dignidade e no valor da pessoa humana, e na igualdade de
direitos das mulheres e dos homens".
domingo, 4 de dezembro de 2016
As mortalhas da União
A língua tem destas ironias: como a de dar o mesmo nome ao lençol que
envolve um cadáver ou à tira de papel fino que embrulha o tabaco num
cigarro. Há 75 anos, em plena guerra mundial, foi em mortalhas que se
escreveu um dos textos inspiradores da paz e da União Europeia. Detidos
na antiga cadeia italiana de alta segurança, no arquipélago de
Ventotene, dois antifascistas redigiram um manifesto clandestino que
clamava por uma Europa onde os países se unissem em estados federativos,
como meio de evitar guerras no futuro. Escrito em papéis de cigarro, o
Manifesto de Ventotene haveria de chegar à resistência italiana e daí
aos movimentos aliados, como sinal de esperança.
domingo, 6 de novembro de 2016
A Caixa a pontapé
Interessam-me os rendimentos do presidente da Caixa pela mesmíssima
razão que me levou a querer conhecer o calçado de um dos nossos maiores
goleadores cujo nome não vem ao caso. O atleta tinha o pé mais pequeno
que eu. Calçava o quarenta, posso garanti-lo. E só agucei a curiosidade
pelas suas botas, quando percebi que o sapateiro do clube tinha ordens
para não as mostrar, sobretudo a mim, encarregado que fora de lhe traçar
o perfil que o jornal haveria de publicar. Afinal, o segredo das
chuteiras era de polichinelo: escondia-o debaixo das palmilhas, era um
cromo do Padre Cruz, o beato das suas devoções a quem atribuía a sorte
do golo.
domingo, 16 de outubro de 2016
Três minutos e quinze segundos
As mais importantes eleições que temos
pela frente têm um problema: não podemos votar nelas. São dentro de três
semanas, nos Estados Unidos, e a contagem de votos condiciona a nossa
vida e o Mundo tal como o conhecemos.
Hillary
Clinton ou Donald Trump. Deste, descobre-se dia após dia que o rosto
coincide com a caricatura: um charlatão, desbragado na língua e
grosseiro no trato, racista, demagogo, marialva e fanfarrão, enfim, em
modo fino nova-iorquino, uma espécie daquele nosso execrável taxista a
quem vimos e ouvimos dizer que as leis são como as virgens, ambas para
violar. Só que, no caso do republicano candidato à Casa Branca, ele
seria capaz de bloquear, não a do Relógio mas as principais rotundas do
Mundo e do comércio à escala global.
domingo, 14 de agosto de 2016
A espera do camelo
Há fogo? Valham-nos os bombeiros, que o resto é fastio. Tal como
no futebol, onde abundam os treinadores de bancada, a época de
incêndios revela-nos um enorme potencial encoberto, o desses sapadores
de sofá e ar condicionado que, se fossem mobilizados, até as labaredas
extinguiam com o bafo de tão doutas táticas sobre um mundo rural que
desprezam e desconhece.
domingo, 3 de julho de 2016
Afinal, com os alemães...
Para
quem já se antevê na final com os alemães, recomendo especial marcação
àquele ameaçador número 10, Schäuble, aspirante a bola de ouro. Dizia-se
de Eusébio que era o abono de família dos jogadores encarnados. Este
Schäuble exorbita: é, ele mesmo, o tesoureiro da liga europeia.
Despertou cedo para a modalidade, na ala direita, desde os juvenis da
CDU à queda do Muro de Berlim. E subiu às costas de Khol, famoso capitão
da equipa germânica a quem eles devem a reunificação.
O
tiro de um adepto adversário, durante um desafio eleitoral, em 1990,
lesionou gravemente o ponta de lança alemão. Joga agora em cadeira de
rodas, mas remata velhaco com a língua. Pior é quando aponta o dedo à
falta do vizinho (a dívida), para exorcizar a sua. E fez bem em
responder-lhe Santos Silva, o nosso delegado, nas vésperas do Conselho
Europeu de terça-feira, o encontro que decide em Bruxelas se levamos ou
não cartão amarelo pelo fora de jogo no défice.
domingo, 1 de maio de 2016
O genro de Marx
Por desoladora ironia, só nos faltava que o
feriado consagrado ao trabalhador calhasse a um domingo! Além de que, à
nossa volta, não há razões para celebrar. Na Europa, o número de
desempregados aproxima-se dos 30 milhões. Por cá, um terço dos que
contam nessa estatística são desempregados há mais de um ano. E dói mais
ainda se pensarmos que um em cada três dos nossos jovens à procura de
emprego bate com o nariz na porta.
Pese
embora a Igreja (Pio XII, em 1955) tenha instituído o dia de hoje para
celebrar São José Operário, em homenagem aos trabalhadores, há bem mais
de um século que a organização do 1.º de Maio é monopólio dos
sindicatos. Mas também estes ameaçam declínio, por toda a Europa do Sul.
Em Portugal, a CGTP e a UGT terão perdido perto de 150 mil filiados nos
últimos quatro anos. A conta é das próprias confederações, que veem
diminuída a sua capacidade de mobilização e dizimada a cobrança de
quotas que financia a sua atividade.
domingo, 21 de fevereiro de 2016
Vitória de Pirro
Diante daqueles que o felicitavam pela batalha ganha aos romanos, Pirro estendeu o olhar pelo campo semeado de baixas do seu próprio exército, e soltou o desabafo que o eternizou: Mais uma vitória como esta e estou perdido.
Desde então, dizemos "vitória de Pirro" para ilustrar uma conquista demasiado penosa, coisa parecida com o acordo agora alcançado na Cimeira de Bruxelas, que dá aos sócios britânicos mais um "estatuto especial" para que estes aceitem manter-se no clube que é a União Europeia.
domingo, 20 de dezembro de 2015
Amigos de Peniche
Agora que António Costa
se estreia nas lides europeias, como primeiro-ministro, vou fazer de
conta que todos, incluindo ele, sabem por que é que "amigos de Peniche"
não são amigos, e muito menos de Peniche. Isto para vos poupar à
história que se aprende desde garoto, há mais de 400 anos, naquele
caminho saqueado que vai de Atouguia da Baleia, à Lourinhã, Torres
Vedras e Lisboa.
O caso é que, em cima da mesa, em Bruxelas, há um
ultimato britânico disfarçado de negociação: ou a União Europeia aceita
ceder mais uma vez condições de exceção para os súbditos de Sua
Majestade, ou o Reino Unido rasga o cartão de sócio e abandona a
comunidade a que só aderiu mais de 15 anos depois do Tratado de Roma. E,
mesmo assim, sempre com um pé fora.
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