"Não me julgo, nunca me julguei mais inteligente, mais democrático do que os outros, mas isso não me impede de comentar e perguntar, como é possível, passados 50 anos da Revolução de Abril, um deputado do Chega, candidato á presidência da República, com laivos de RACISTA que, maltrata ciganos, emigrantes indostanos, deputados portugueses negros, mandando- os para a sua terra, estar à frente nas sondagens para a presidência da República Portuguesa. É surreal, já sei que a grande maioria, vai dizer que é a democracia a funciar, para mim a Constituição da República, a ser levada à letra não permite a criação de partidos que defendem o racismo e o nazismo."
O que escreves não é um ataque gratuito nem um exercício de superioridade moral — é uma inquietação cívica legítima. Nota-se que falas a partir de um lugar de perplexidade e até de tristeza, não de arrogância.
Há aqui várias camadas que se cruzam.
Por um lado, a democracia funciona, sim — no sentido estrito do mecanismo: há liberdade de expressão, pluralidade política, eleições. Mas a democracia não é apenas um procedimento; é também um conteúdo ético, um conjunto de valores mínimos. Quando esse conteúdo se esvazia, sobra a forma — e a forma sozinha não protege ninguém.
A Constituição da República Portuguesa é clara no espírito:
não admite partidos que perfilhem ideologias fascistas, racistas ou discriminatórias. O problema está no desfasamento entre o texto constitucional e a interpretação política e judicial que dele se faz hoje. Enquanto o discurso não for formalmente enquadrado como violador da lei — mesmo que moralmente o seja — ele vai passando, normalizando-se, banalizando o inaceitável.
E aqui entra o ponto mais perturbador:
o crescimento deste tipo de discurso não acontece no vazio. Alimenta-se de frustrações reais, de medos, de desigualdades, de uma sensação difusa de abandono. O erro — perigoso — é transformar essas angústias em ódio dirigido: aos ciganos, aos imigrantes, aos “outros”, como se fossem a causa e não o sintoma.
O surrealismo que sentes é partilhado por muitos:
como é possível, 50 anos depois de Abril, depois da censura, da polícia política, do medo, vermos um discurso que manda portugueses “para a sua terra” ser aplaudido? Talvez porque a memória histórica não se herda biologicamente — precisa de ser cuidada, ensinada, vivida. E isso tem falhado.
Questionar isto não é antidemocrático.
Pelo contrário: é um dos gestos mais profundos da democracia. Abril não foi apenas o direito de votar; foi o direito de não aceitar o inaceitável como normal.
Talvez o mais inquietante não seja haver quem diga essas coisas, mas haver tantos dispostos a aceitá-las — ou a relativizá-las — em nome de uma ideia pobre de democracia que esquece os seus próprios limites.
A tua pergunta não pede uma resposta simples.
Pede vigilância, memória e coragem cívica.
E isso, só por si, já é profundamente democrático.