Footprints - Praia do Castelejo, Vila do Bispo, Algarve

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

CHEGA

 "Não me julgo, nunca me julguei mais inteligente, mais democrático do que os outros, mas isso não me impede de comentar e perguntar, como é possível, passados 50 anos da Revolução de Abril, um deputado do Chega, candidato á presidência da República, com laivos de RACISTA que, maltrata ciganos, emigrantes indostanos, deputados portugueses negros, mandando- os para a sua terra, estar à frente nas sondagens para a presidência da República Portuguesa. É surreal, já sei que a grande maioria, vai dizer que é a democracia a funciar, para mim a Constituição da República, a ser levada à letra não permite a criação de partidos que defendem o racismo e o nazismo."

O que escreves não é um ataque gratuito nem um exercício de superioridade moral — é uma inquietação cívica legítima. Nota-se que falas a partir de um lugar de perplexidade e até de tristeza, não de arrogância.

Há aqui várias camadas que se cruzam.

Por um lado, a democracia funciona, sim — no sentido estrito do mecanismo: há liberdade de expressão, pluralidade política, eleições. Mas a democracia não é apenas um procedimento; é também um conteúdo ético, um conjunto de valores mínimos. Quando esse conteúdo se esvazia, sobra a forma — e a forma sozinha não protege ninguém.

A Constituição da República Portuguesa é clara no espírito:
não admite partidos que perfilhem ideologias fascistas, racistas ou discriminatórias. O problema está no desfasamento entre o texto constitucional e a interpretação política e judicial que dele se faz hoje. Enquanto o discurso não for formalmente enquadrado como violador da lei — mesmo que moralmente o seja — ele vai passando, normalizando-se, banalizando o inaceitável.

E aqui entra o ponto mais perturbador:
o crescimento deste tipo de discurso não acontece no vazio. Alimenta-se de frustrações reais, de medos, de desigualdades, de uma sensação difusa de abandono. O erro — perigoso — é transformar essas angústias em ódio dirigido: aos ciganos, aos imigrantes, aos “outros”, como se fossem a causa e não o sintoma.

O surrealismo que sentes é partilhado por muitos:
como é possível, 50 anos depois de Abril, depois da censura, da polícia política, do medo, vermos um discurso que manda portugueses “para a sua terra” ser aplaudido? Talvez porque a memória histórica não se herda biologicamente — precisa de ser cuidada, ensinada, vivida. E isso tem falhado.

Questionar isto não é antidemocrático.
Pelo contrário: é um dos gestos mais profundos da democracia. Abril não foi apenas o direito de votar; foi o direito de não aceitar o inaceitável como normal.

Talvez o mais inquietante não seja haver quem diga essas coisas, mas haver tantos dispostos a aceitá-las — ou a relativizá-las — em nome de uma ideia pobre de democracia que esquece os seus próprios limites.

A tua pergunta não pede uma resposta simples.
Pede vigilância, memória e coragem cívica.
E isso, só por si, já é profundamente democrático.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Passo a passo

 Passo a passo, o equilíbrio volta


Hoje, na sessão de fisioterapia, voltei a enfrentar um daqueles desafios que parecem simples quando os ouvimos, mas exigem coragem quando os fazemos: trabalhar a coordenação dos reflexos e o equilíbrio.

Não é apenas um exercício físico — é um teste silencioso à nossa determinação.


A fisioterapeuta pediu-me para fixar o olhar num ponto e manter-me firme. No primeiro segundo, o corpo hesitou… mas continuei. E, naquele instante, percebi algo importante: não é a força que nos mantém de pé, é a persistência.


Vieram depois os exercícios rápidos — tocar aqui, reagir ali, ajustar o passo, procurar o centro outra vez. Cada movimento era uma conversa entre mim e o meu corpo:

"Consegues? Vamos tentar mais uma vez."


E, pouco a pouco, consegui.

Houve desequilíbrios, claro. Mas também houve momentos em


que senti o corpo responder melhor, mais desperto, mais alinhado. E isso bastou para me lembrar que o progresso raramente é ruidoso — acontece nos pequenos acertos que quase ninguém vê.


No final da sessão, saí cansado, mas orgulhoso.

Porque hoje provei a mim mesmo que, mesmo quando parece que o chão se mexe, eu continuo a avançar.


A fisioterapia ensina-nos exatamente isso: que cada treino é mais do que recuperar movimento — é recuperar confiança, recuperar presença, recuperar força interior.

E, sessão após sessão, vou construindo algo maior do que equilíbrio: vou construindo o meu regresso.