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terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Fisioterapia

 O regresso fez-se sentir no corpo e na mente, como era inevitável. Duas semanas parecem pouco no calendário, mas no corpo de quem está em reconstrução são uma eternidade silenciosa. Hoje, ao retomar as sessões, o cansaço instalou-se sem pedir licença, pesado, quase pedagógico, lembrando-me — lembrando-lhe — da importância destes rituais de esforço e persistência.

A fisioterapia não é apenas exercício: é âncora. Sustém o corpo, mas também organiza o pensamento, devolve confiança, impõe disciplina e esperança. A ausência revelou-lhe, com clareza quase cruel, o quanto esse trabalho é essencial para o seu equilíbrio físico e mental. Há conquistas que só se percebem quando, por instantes, delas nos afastamos.

O cansaço de hoje não é derrota; é sinal de caminho retomado. Amanhã, o corpo que hoje protestou começará, discretamente, a agradecer.

Sessão de hemodiálise


 Sessão de hemodiálise

Quatro horas de tratamento, quatro horas que não são apenas tempo medido em relógio mas uma espécie de suspensão, como se o mundo continuasse a girar algures lá fora enquanto aqui dentro tudo se arrasta, lento, repetitivo, quase imóvel, e a pergunta surge inevitável, como passar tanto tempo, o que fazer com este intervalo que não escolhemos e que ainda assim temos de habitar.

Falo por mim, não consigo dormir, o corpo está deitado mas a cabeça não se cala, e o tratamento começa algures entre as cinco da tarde e as dez da noite, dependendo da prontidão das máquinas, porque nem todas acordam à mesma hora, nem todas obedecem à mesma lógica, e assim também nós aprendemos que até a sobrevivência depende da boa vontade de um mecanismo que não sente, não pensa, não se apressa.

A televisão, suspensa no teto por cima da cadeira, acaba por ser a única janela possível, e faço zapping, não por curiosidade mas por necessidade, como quem procura um ponto de apoio para não cair dentro de si próprio, há canais para todos os gostos, dizem, e talvez seja verdade, mas eu acabo quase sempre na CNN, não por fidelidade mas por hábito, para me manter ligado ao ruído do mundo, às notícias, às palavras que falam de eleições, de candidatos à Presidência da República, marcadas para o próximo domingo, dia dezoito, com sondagens que se sucedem como se fossem oráculos modernos, sempre prontos a dizer-nos o que vai acontecer antes que aconteça.

Há candidatos para todos os gostos, para todas as conveniências, para todas as ilusões, e eu, que não escondo o que penso, tenho o meu preferido, o comunista António Filipe, sabendo de antemão que as suas hipóteses de chegar a uma segunda volta são praticamente nulas, mas há convicções que não se medem em probabilidades, medem-se em coerência, e isso, pelo menos, ninguém nos pode retirar.

Quando o cansaço vence até o interesse pela política, quando as palavras já não entram e as imagens já não dizem nada, mudo para um canal de desenhos animados, não por infantilidade mas por defesa, porque ali o mundo é simples, o bem e o mal estão claramente definidos, e durante alguns minutos posso fingir que o tempo passa mais depressa, embora saiba, no fundo, que ele continua ali, imóvel, sentado ao meu lado, à espera que estas quatro horas finalmente se esgotem.